A beleza do feito à mão

Coletivo de arte e artesanato promove encontro com talentos mineiros no Rio de Janeiro

Projeto Beagá Arte - Valorizando Quem Faz leva evento especial com a produção criativa de Minas Gerais para o aclamado restaurante La Fiorentina, em 15 de abril

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postado em 10/04/2019 13:42 / atualizado em 10/04/2019 13:54 Joana Gontijo /Lugar Certo
Divulgação

O projeto Beagá Arte - Valorizando Quem Faz, coletivo de arte e artesanato mineiro, aporta no Rio de Janeiro, tambor de ressonância da cultura brasileira, e convida o público para o evento Minas: Arte e Voz - Das montanhas para o mar, grandes ícones. O encontro, marcado para o dia 15 de abril na galeria do aclamado restaurante La Fiorentina, no Leme, reunirá produtores de Minas Gerais que têm suas obras entre as mais representativas do estado e irão apresentar seu trabalho tradicional, além de peças temáticas.

Com o norte "grandes ícones do cinema, música, teatro e literatura", os expositores farão homenagem a personagens ilustres da cena artística nacional e internacional. Entre as referências, Fernanda Montenegro, Clara Nunes (cantora mineira que esse ano deu o tom do carnaval da Portela), Nana Caymmi (filha de mãe mineira), Elza Soares, Rita Lee, Elis Regina, Carmem Miranda, Frida Kahlo, e outros.

O primeiro centro cultural que foi a semente do Beagá Arte entra em seu quinto ano de história. Começou pequenino na garagem de casa pela iniciativa de Cynthia Rabello. De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje agrupa artistas e artesãos que mostram os mais variados tipos de artigos manuais, reafirmando a força criativa de Minas.

No início, o projeto, além de oferecer cursos, oficinas e workshops diversos, figurou em eventos da área, marcou presença em feiras, e agora toma lugar no Sou Café, dentro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, com uma loja permanente para venda e exposição dos produtos. No café, inclusive, acontece mensalmente, desde dezembro de 2018, um encontro de arte e artesanato, que já caiu no gosto do público nesse que é um espaço privilegiado na cena cultural belo-horizontina.

"Costumo dizer que estamos no meio termo - não fazemos nem o artesanato simples e nem as obras de arte mais inviáveis e inacessíveis. Buscamos trazer a arte e o artesanato que sejam alcançáveis e que as pessoas possam consumir no dia a dia", pontua Cynthia Rabello. Entre o variado leque que enriquece o projeto, o melhor do artesanato, das artes, da moda e do design, com presença ilustre de marcas locais.

"Temos uma clientela que conhece o trabalho há muito tempo, o que nos dá um bom retorno. As pessoas ficam fascinadas", diz Cynthia. O artesanato rico e autêntico chama o olhar de quem se surpreende com as peças. "Geralmente, não se tem acesso a uma produção de qualidade. Assim, quem frequenta nossa loja e os eventos se apaixona. Fazemos questão de exaltar a história de cada artista, como uma maneira de resgate mesmo". No grupo do Beagá Arte, produtores de todas as idades são os responsáveis pela magia do que é feito à mão. "Pretendemos promover a união entre os atores da cadeia da arte e do artesanato. Convocamos o público para prestigiar a produção em Minas, valorizar o que a gente tem e faz", acrescenta Cynthia.

Em 2019, muita coisa boa acontecendo. Já com a ideia engatilhada, um dos próximos passos do coletivo é conseguir se formar como associação, o que vai otimizar a visibilidade e abrangência de público. O propósito é obter incentivo, novas formas de apoio, dar oportunidade aos artesãos de integrar diferentes exposições, até em outros estados, em locais como centros culturais e museus, por exemplo, a preços de participação acessíveis.

"A intenção é estabelecer um encontro de arte itinerante. Agrupar uma turma com trabalhos diferenciados, criativos e, assim, investir em uma divulgação maciça para ampliar o espectro de atuação dos artistas e artesãos, focando realmente na produção mineira. O importante agora é estarmos organizados", diz Cynthia. Outro fato a celebrar é a recém-inaugurada loja de arte e artesanato em Ouro Preto, cidade histórica símbolo em Minas Gerais, uma iniciativa independente que conta com o apoio do Beagá Arte.

Serviço:
Minas: Arte e Voz - Das montanhas para o mar, grandes ícones
15 de abril, de 16h às 22h
No La Fiorentina
Avenida Atlântica, 458 - Leme, Rio de Janeiro/RJ
Instagram: 
@beagaarte@minasarteevoz 
Facebook: 
https://www.facebook.com/centroculturalbrilhohart/?ti=as e https://www.facebook.com/events/291067131804479/ 

Veja o perfil dos expositores participantes do evento: 

Alex e Mário Teles - @telesescultor e @artteles 

Teles/Divulgação

A arte que atravessa gerações. Quando se trata do ofício artesanal, a reafirmação das raízes é uma constante, significa identidade. É o que acontece com uma família de artistas mineiros, mestres em esculturas em madeira. Geraldo Teles de Oliveira, conhecido como GTO, se tornou um dos mais importantes artistas populares brasileiros ao criar esculturas autorreferentes. São figuras humanas que se amontoam de maneira esquemática e repetida, em geral formando o que apelidava como “A Roda da Vida”. Repassou a sabedoria ao filho, Mario Teles, que a transmitiu ao representante da terceira geração, o neto de GTO, Alex Teles. Para o encontro no Rio de Janeiro, Mário e Alex irão apresentar a obra própria, que lembra o trabalho celebrado internacionalmente de Geraldo, falecido em 1990.

Nascido em 1942, Mario Teles inicia sua trajetória na arte como pintor, em 1964, e daí derivou para a escultura, em 1967. Com um direcionamento preponderante pelo folclore, manifestações populares e movimentos culturais, nos trabalhos de Mario a representação humana assume uma proporção maior se comparada à obra do pai. A temática carrega uma evidente conotação fantástica, com figuras detalhadas em estruturas verticais e desenhos vazados, trazendo à tona uma sensação de força, equilíbrio e liberdade.

Com uma obra espontânea, contemporânea e orgânica, no trabalho de Mario Teles está a essência de uma cultura viva. Torna-se clara a herança que recebeu de GTO, ainda que isso não o caracterize como mais um prosseguidor do estilo paterno. Mario já exerce uma expressão própria, não inconsciente, explorando recortes geometrizados e volumes, buscando na tradição popular os fatos do povo, a religiosidade, preconceitos e sabedorias.

Alex, por sua vez, que atribui para si o nome artístico Teles, tem formação em comunicação social, com especialidade em publicidade e propaganda. Convive com a arte desde criança, observando o avô e o pai no processo de criação. Em meados de 2000, envolve-se diretamente no espaço criado pelo avô, e ingressa como diretor no Museu Residência Geraldo Teles de Oliveira - GTO (popularmente conhecido como Museu Casa GTO), abrindo para a sociedade a história de memórias e sabedorias que fortalece a cultura da região, mesmo assim de alcance mundial, sem deixar perder a essência da família.

Desde 2016, com o apoio do pai, Teles explora seu talento, imbuído de um sentimento de luta, com humildade e simplicidade, e começou a criar e entalhar seus próprios trabalhos. Alicerçadas em estudos do inconsciente, as peças lembram sonhos da cultura popular, da arte primitiva, exploram o diálogo e uma linguagem universalista.

Cláudio Gerais

Cláudio Gerais/Divulgação

Ainda cedo, na infância, ele conheceu a história da Inconfidência Mineira e se encantou com Tiradentes. Nascido em Belo Horizonte, costumava ir a pé do Bairro Caiçara à Pampulha, na época em que a cidade tinha muitas áreas verdes. Quando ingressava nesses passeios, para pescar, nadar e se divertir, o menino esculpia a figura do inconfidente em todo barranco de terra que encontrava pelo caminho. “Eu tinha a necessidade de fazer figuras. Depois comecei a esculpir em tijolo maciço, com chave de fenda e, quando um amigo me deu uma ferramenta para cortar madeira, iniciei o trabalho nesse suporte, quando pude diversificar a produção”, conta Cláudio Gerais, artesão autodidata que hoje, aos 61 anos, tem uma vasta produção no estilo que denomina barroco urbano, que inclui nos traços mais tradicionais um ponto de modernidade.

Entre a linha de esculturas em madeira, que vão de 20 centímetros a até 1,5 metros de altura, produz madonas, medalhões com anjos, florões, santos, animais diversos como esquilos, leão, caramujo, tatu, pássaros, felinos. Nas peças religiosas, inclui um sentido que foge da conotação sacra nua e crua, imprimindo desenhos variados em diálogo com os santos. Cláudio encara tudo o que lhe é apresentado como desafio e diz que pode fazer qualquer coisa que tenha vontade. Já entalhou portas, placas de sítio, de loja, entre outros. Tem peças em museus em BH, no Rio de Janeiro, participou de várias exposições e é um artista premiado.

O trabalho de Cláudio começou a se tornar profissional quando ele tinha ainda 20 anos de idade e entrou para a Feira Hippie, na capital mineira, que nesta época funcionava na Praça da Liberdade, onde ficou até entre 1979 e 1982. “As pessoas começaram a falar que meu trabalho era digno de galerias. Então entrei para esse circuito, mas a experiência não foi boa. Passei a colocar minhas peças em lojas de artesanato, participar de exposições, espaços culturais, e daí deslanchei”, lembra. Cláudio considera o diferencial de seu trabalho a originalidade, que não se importa com modismos.

Denise Cruz - Cruzes Décor - @cruzesdecor 

Cruzes Décor/Divulgação

Denise Cruz costumava trabalhar na área administrativa dentro de escritórios. Depois de se aposentar, ingressou por um tempo no ramo imobiliário, mas sempre gostou da arte manual. Antenada, logo iniciou o caminho que a levaria a criar a Cruzes Décor, em um primeiro momento com a parceria de uma das filhas, em agosto de 2015. Pesquisou tendências, entendeu o que estava na moda, o que as pessoas estavam fazendo e gostando, o cenário do mercado e, com esse foco, começou a fazer cursos de artesanato.

Após um tempo de desenvolvimento da identidade da Cruzes Décor, Denise passa a investir em diferentes técnicas, como crochê, tricô, bordado (explorando as potencialidades do fio de malha, sustentável), decupagem em tecido e com guardanapo, pátina francesa e envelhecida, pintura comum, além de materiais reaproveitados. Assim, chega mais perto das características de sua linha de fabricação atual: bolsas de crochê, cachepôs, bastidores, colares com mini bastidores, baús, para citar apenas alguns exemplos, e decoração em geral.

Denise, então, se abre para a participação em feiras, exposições, aproveita outras oportunidades e não para mais. Hoje, a Cruzes Décor significa mesmo a união de sua família, em uma frutífera harmonia de troca de talentos e ideias. A mãe, Thereza Maria, bordadeira de mão cheia, ajuda na criação dos bastidores bordados em formato de quadrinhos circulares.

Para Denise, o trabalho artesanal significa vida e saúde e pode, em muitos casos, até acabar com o sofrimento de pessoas em depressão. “Quando você está em casa trabalhando, não vê a hora passar, sempre fazendo coisas novas, dentro do que as pessoas estão gostando. Conseguir passar para o objeto o que a pessoa queria é gratificante. Também é muito bom conhecer gente diferente todos os dias. Estou bem feliz. Gosto do que faço, mas gostaria de fazer mais”, pontua.

Para o encontro Minas - Arte e Voz, Denise irá apresentar bastidores com letras de música da Clara Nunes e Nana Caymmi, além de cachepôs de crochê e bastidores com a figura de Frida Kahlo.

Djenane Vera - Vila Ateliê - 
@djenanevera 

Djenane Vera/Divulgação

A partir do momento em que começou a pesquisar sobre suas raízes, até chegar na referência das mulheres negras, hoje norte de seu trabalho com a arte e o artesanato, Djenane Vera conseguiu reconhecer sua identidade. O pontapé para a obra mais elaborada, aproveitando o talento que encontra desde a infância e adolescência, veio da necessidade de imprimir sua personalidade nas peças e, muito antes, falar sobre questões sociais.

Djenane nasceu em Belo Horizonte, tem 46 anos e mora há 15 em Contagem, na Grande BH. Formada em licenciatura em desenho e artes plásticas pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em 1998, aos 24 anos, ela conta que desde pequena gosta de pintar. O contato mais próximo com esse universo começou mesmo na faculdade. Em um determinado ponto de seu crescimento artístico, Djenane buscou na argila algo mais palpável que a tinta. Começou com representações de relações pessoais, familiares, em referência a figuras de pai, mãe e filho.

A intimidade mais intensa com a cerâmica se deu há 10 anos e, há três, surgiu em sua obra a percepção de ser mulher. Com a cerâmica, a partir de então, tomam força as alusões ao feminino, com esculturas de mulheres em geral, mulheres negras, muitas africanas, e índias. Além das esculturas, Djenane compõe outras peças artísticas e utilitários, como xícaras, pratos, tigelas, bules, vasinhos de suculentas, usando também nesses suportes o desenho de mulheres. Atualmente, comanda a marca Vila Ateliê.

Para o encontro no La Fiorentina, a artista irá apresentar xícaras, tigelas e vasos de suculentas com representações de Frida Kahlo, Carmem Miranda, e outras mulheres negras como Dandara, Anastácia e Marielle Franco.

Domingos Sávio Gariglio - Gariglio Design - @garigliodesign

Domingos Gariglio/Divulgação

Foi quando morou em Natal, no Rio Grande do Norte, entre 1992 e 1997, que Domingos Sávio Gariglio ensaiou os primeiros passos do que hoje é seu belo trabalho com joalheria de design autoral, que ele chama de joalheria de autor. Nesta época, conheceu uma joalheira de São Paulo que oferecia cursos na área. Ele entrou para as aulas e tudo começou a engrenar. Na volta a BH, deu prosseguimento e desenvolveu o conhecimento recém-adquirido.

A etiqueta Gariglio Design foi criada a partir do momento em que, o que a princípio era hobbie se profissionalizou, entre 1999 e 2000. O nome se firmou no mercado e agora Domingos já toma lugar em lojas, feiras e eventos.

Formado em 1987 como design gráfico pelo curso de comunicação visual na antiga Fuma, atual UEMG, em Belo Horizonte, ele conta que sempre gostou de pedras, o alicerce de sua obra. Produz peças únicas, nunca repetidas, entre anéis, colares, brincos, pulseiras e broches, feitos em prata, ouro, cobre ou latão.

Domingos garante que não segue tendências. Fora do padrão e com contornos fluidos, agrada o público que procura itens artísticos, individualizados, com a marca inigualável do feito à mão. Para ele, as pessoas querem do artesanato personalidade. “É o resgate da identidade, o contrário da indústria e da massificação. O uso de materiais diferenciados, o carimbo do que é original. As pessoas estão enjoadas do que é feito em manada”, diz.

Estevão Machado - @estevaomachadogontijo  

Estevão Machado/Divulgação

Estevão Machado nasceu em 10 de janeiro de 1959, na capital mineira. O trajeto artístico começa ainda jovem, em cursos de desenho livre, gravura em metal, e na atuação, por quatro anos, no Grupo Oficina Multimédia de Belo Horizonte. Formado em design gráfico na atual UEMG, por 20 anos Estevão trabalhou em agências de propaganda, com foco nas áreas de design gráfico e pesquisas na web.

Em 2002, uma correção de prumo. Ele decide dar mais ênfase à atividade artística, mas definitivamente fora do convencional. Pintor autodidata, o mergulho no mundo da arte contemporânea se mostrou irreversível para Estevão, que assina variados trabalhos a tinta já expostos no circuito cultural, indo de mostras em galerias a intervenções urbanas.

Com o premiado livro O Rio no Bolso e o Quintal Amarelo, vencedor entre 1,7 mil inscritos no Concurso Nacional de Literatura, Prêmio Cidade de Belo Horizonte, no ano de 2014, o artista começa a explorar uma nova faceta de sua produção, para percorrer os caminhos da palavra. Com referências carregadas da infância, busca no imaginário de suas memórias afetivas o norte para o conjunto de poesias e desenhos que compõem a obra.

Dentre diferentes modos de expressão, a volta ao desenho é sempre recorrente. Para o evento no La Fiorentina, Estevão mostrará um rico conjunto de gravuras retratando cenários de cidades históricas mineiras.

Exequiel Duarte - Recicl-A-rte - @recicl4arte 

Exequiel Duarte/Divulgação

Nascido na cidade de Rosário, na província de Santa Fé, na Argentina, Exequiel Duarte passou boa parte da vida em Buenos Aires. A primeira formação foi como professor de educação física e psicólogo social. Atuou com psicologia transpessoal, quando pôde trabalhar com ferramentas artísticas como forma de terapia, desenvolvendo as técnicas de labirintos, mandalas e mosaicos, processos bem próximos.

Ele compara metaforicamente o mosaico com a vida que, muitas vezes, pode parecer despedaçada. “Fazendo uma analogia, o mosaico, encarado como arte terapia, dá uma ideia de se recompor, voltar os caquinhos para o lugar. Em algum momento parece que tudo está quebrado e é preciso voltar ao eixo, ao equilíbrio. O mosaico é uma ferramenta que ajuda a trabalhar essas questões, tanto como terapia, como com o desenvolvimento das habilidades artísticas propriamente ditas”, explica.

Por volta do ano 2000, a Argentina começou a passar por uma severa crise econômica e Exequiel passou a dar mais ênfase para o trabalho artístico, artesanal, porque eram objetos mais fáceis de vender - a verdade é que desde os 20 anos faz artesanato. Parte da carreira como professor de educação física foi paga com a feitura de chaveiros, pulseiras e colares. Também já produziu peças com pintura em vidro e papel machê.

Depois do tempo na Argentina, quando dividiu as atenções entre o trabalho como artesão e terapeuta, veio morar no Brasil, em Belo Horizonte, onde está há 16 anos. Em terras brazucas, Exequiel pôde desenvolver uma visão mais depurada de suas técnicas e viveu uma virada em sua expressão artística. Com foco em sustentabilidade, cria itens utilitários e decorativos, entre quadros, espelhos, luminárias de design, ímãs, esculturas minimalistas em palito de fósforo.

"O artesanato é algo de primeira necessidade para a alma. Serve para decorar a casa, traz equilíbrio e harmonia ao espaço”, salienta Exequiel. Para o evento no La Fiorentina, ele vai levar esculturas em fósforo e micro mosaicos homenageando Elza Soares, Elis Regina, Rita Lee e Carmem Miranda.

João Paulo da Mota e Miguel de Souza - @artesmota e @ateliemigueldesouza 

João Paulo da Mota e Miguel de Souza/Divulgação

Na família dos irmãos ceramistas João Paulo da Mota de Souza, 37, e Miguel de Souza, 44, a atuação com a cerâmica vem de berço. Desde 1998, eles dividem ateliê em Betim, na Grande BH, onde moram. O pai, Manoel Miguel de Souza, aprendeu com sua mãe, Joana Assunção, ainda em Pernambuco, a arte de modelar a terra. A avó deles, escultora, também ensinou esses passos para os outros filhos, inclusive um deles, Zé do Carmo, que, até hoje, na cidade pernambucana de Goiana, continua o fazer com pintura e escultura, criador da figura dos anjos cangaceiros. A linhagem familiar que derivou daí expandiu a obra primeira de Joana.

A aprendizagem sobre a cerâmica partiu, no início, da observação curiosa dos irmãos mais velhos sobre o trabalho do pai. "Quando ele faleceu, eu tinha 8 anos. Me lembro do castigo que eu recebia por causa de bagunça: amassar a argila", recorda-se João Paulo. Já para Miguel, que, na época da morte, tinha lá seus 13 anos, o contato com Manoel foi mais próximo - ele lhe transmitiu diretamente diversas técnicas.

João Paulo representa em suas obras cenas do cotidiano, de cunho social, muitas vezes até de crítica. Miguel, por sua vez, aprecia e cria elementos com temas religiosos e de folclore, como santos, anjos, presépios, a partir de uma leitura que remete à família e à vivência familiar. Outro irmão dos dois, Carlos Miguel Mota, 33, também trabalha com cerâmica. Sua linha de produção passeia por objetos de uso para o lar, como panelas de barro, luminárias, vasos de planta, fruteiras, potes, cachepôs em forma de animais como patos e cisnes.

José Adolfo Viana - Sereias do Velho Chico - @adolfovianade 

José Adolfo Viana/Divulgação

É carregado de simbologia, explorando com criatividade ímpar o imaginário coletivo, que o trabalho do artesão escultor autodidata José Adolfo Viana, de 50 anos, transforma a cultura do Alto São Francisco em obras únicas, elaboradas em cerâmica a partir da argila terracota. Natural de Januária, no Norte de Minas Gerais, por um tempo, há cerca de 20 anos, ele resolveu se mudar para Belo Horizonte e atuou em Betim, na região metropolitana, como oficial de apoio judicial.

Poderia até parecer improvável que Adolfo, formado como técnico contábil e técnico agrícola, um dia voltaria à cidade natal para se dedicar à arte. A verdade é que ele sempre apreciou o desenho e, quando criança, brincava com a argila retirada da beira do Rio São Francisco. “Quando baixava a água, tinha muito barro. A gente fazia brinquedos como cavalo, boi, vaqueiro e nos divertíamos com a nossa própria fazendinha. Minha paixão pela cerâmica começou na infância mesmo”, lembra.

Agora, sob as bênçãos do santo que dá nome ao rio que presenteia a cidade com suas águas, santo de devoção de Adolfo, ele cria peças cheias de identidade e com traços singulares, sem repetição. Inaugurou a marca Sereias do Velho Chico e, já há quatro anos, quando iniciou o percurso pela modelagem, representa em esculturas lendas da região, com as sereias de água doce, entre elas a Mãe D’água, que protege o Rio São Francisco, releituras de carrancas do Velho Chico a partir de rostos femininos, além de esculpir o ícone religioso em si, São Francisco de Assis. Entre as obras que irá apresentar no evento no Rio de Janeiro, está uma referência à cantora Clara Nunes.

Kennya Ramalho Luz - Ateliê Diadorim - @ateliediadorim 

Ateliê Diadorim/Divulgação

Kennya Ramalho Luz, de 41 anos, sempre esteve atenta às questões culturais e sociais, com firme posicionamento político e ideológico. Através de seu fazer artístico e artesanal, consegue contribuir para o crescimento crítico e pessoal de indivíduos em condição de vulnerabilidade. Graduada em 2013 em artes visuais pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em um certo ponto de seu caminho profissional na área começou a ministrar oficinas para mulheres em situação de risco e violência doméstica pelo CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), moradoras de bairros de periferia em Belo Horizonte, quando pôde trabalhar questões comoo empoderamento feminino. “Junto às mulheres, a prática do artesanato ampliou em mim o sentido do pensar e fazer artístico”.

Há cinco anos, atua junto a pessoas em sofrimento mental, através de um programa municipal, também oferecendo aulas, ensinando, por exemplo, técnicas de origami, encadernação, construção de bonecos, criação de objetos, entre outros processos. Através dos princípios da terapia alternativa, Kennya atende cerca de 50 alunos por semana, que não se furtam de suas responsabilidades simbólicas, por assim dizer, e se engajam fortemente em propósitos de ativismo político.

Uma parte importante do domínio artístico de Kennya, além dos origamis produzidos em formatos diversificados, são as bonecas, essencialmente as bonecas de pano. Ela explora diferentes leituras para a clássica Tilda, obra da designer norueguesa Tone Finnanger que, inicialmente, surge magrinha, com pernas e braços compridos, feita à mão e toda em tecido, macia. A principal característica são os olhos interpretados apenas por dois pontinhos e bochechas rosadas, a ausência da boca e o pescoço longo, em modelos que chamam a atenção pela riqueza de detalhes, simplicidade e a possibilidade de explorar cabelos, roupas e acessórios variados quefazem de cada uma bonecas únicas. “Sempre gostei da Tilda. É mais próxima do corpo humano real. Fornece a chance de interferir nesse corpo, criar personagens. Um modelo de sutileza, delicadeza, com traço menos robustos, menos agressivos, mais palpáveis”, relata Kennya, que tem feito ainda Tildas negras e obesas.

Há dois anos, a artista experimenta a costura - ingressou em um curso de modelagem. Para o encontro no Rio de Janeiro, Kennya irá apresentar Tildas lembrando Frida Kahlo, Fernanda Montenegro e Elza Soares, além de bonecas costureiras e gordinhas, reafirmando as mulheres como marca fundamental em sua arte.

Lloyd Riddick

Lloyd Riddick/Divulgação

A primeira inspiração para o desenho veio da mãe, ilustradora. Para o nova-iorquino Lloyd Riddick, de 57 anos, desenhar é ver a beleza das coisas, das mais simples às mais complicadas. Seguiu os passos maternos e, hoje também ilustrador, ele diz que retrata o que encontra de mais belo. “Qualquer pessoa pode aprender a desenhar. Desenhar é ver”, convida.

Sem temática rígida, sem um estilo definido, ele tem uma longa trajetória pelo desenho, em uma obra que foge do abstrato. O trabalho na área no início veio de um tom mais técnico. Já atuou com ilustrações arquitetônicas, médicas, para livros infantis e revistas, por exemplo, e o que mais lhe é pedido - ou seja, sob demanda. “Fui treinado a vida toda a produzir arte por contratos e prazos. Não retrato coisas internas, meus sentimentos, e sim imagens do mundo que acho bonitas. Não é uma necessidade do coração. Meu trabalho vem do que vejo”, revela.

Agora, depois de muito tempo, Lloyd começa a retomar o contato com a arte em si, pela pintura e, claro, sem esquecer a ilustração. Mesmo assim, diz que, por ser ilustrador, não é o tipo de artista que sofre para produzir imagens. Tem feito obras com maquetes, desenhos de grandes dimensões, imagens em geral. Diz que sempre gostou de museus e, em uma de suas criações atuais, retrata peças do Metropolitan Museum of Art, o The Met, em Nova York. Também assina uma série de desenhos sobre cidades do interior de Minas Gerais, com cenários como fogão a lenha, panelas penduradas, além de maquetes das igrejas da histórica Ouro Preto. Com criações em giz de cera e pastel de arte greco-romana, ele explora com maestria as possibilidades do jogo de luz e sombra.

Lloyd morou em Nova York até os 20 anos de idade e em Washington até os 36, quando embarcou para Belo Horizonte, onde vive até hoje.

Marcela Moreirah - Bruaca - @suabruaca 

Bruaca/Divulgação

Pode ser o que muita gente acha, mas não é insulto. Está no dicionário: bruaca é uma mala de couro cru que no período colonial era utilizada por tropeiros para transporte de objetos, víveres e mercadorias no lombo dos burros ou outros animais de carga. Na produção de Marcela Moreirah, designer à frente da marca de bolsas que leva esse nome, o carro-chefe é a releitura caprichosa e descontraída para as bruacas deste século, brinca.

Marcela tem 35 anos e é formada em design de moda pelo Centro Universitário UNI-BH, em 2008. Após a graduação, atuou por seis anos no Palácio das Artes, na capital mineira, com produção de espetáculos - cuidava dos figurinos, adereços e cenários.

Ainda no Palácio das Artes, Marcela tinha um amigo que explorava a vertente de arte de rua denominada lambe, uma forma de intervenção urbana utilizada com propósitos diferentes, desde uma simples transmissão de ideias e pensamentos ou divulgação da arte, até protestos elaborados a partir de imagens e textos. A proposta inicial do colega era a aplicação de frases em postes, até o momento em que ele resolveu explorar outros suportes para os dizeres, como ímãs, por exemplo, e pediu a Marcela que criasse sacolas com as mensagens.

No início empenhada com a concepção das sacolas, Marcela vislumbrou a possibilidade de criar a marca própria de bolsas, concebendo artigos funcionais, com utilidade. Para a origem da marca, a designer buscou um nome que não representasse apenas modismos, mas sim que carregasse identidade e personalidade, saindo de tendências. Após pesquisas, chegou na denominação Bruaca e seu interessante significado, e passou a assinar assim em 2017. "Desenvolvo porque gosto, é algo pessoal para mim, a inspiração chega e eu vou fazendo. Pretendo que a marca continue trilhando um bom caminho, ganhando o mundo”, almeja.

O trabalho com as bolsas, para ela, expressa a sua relação com o nome, com a raiz sertaneja, com a raiz mineira ligada à terra, à roça, ao fazer manual.

Rita Gomes Ferreira - @rita_g.f 

Rita Gomes/Divulgação

Um saber que passa de mãe para filha. A representação da cultura de um lugar a partir da arte, símbolos da história de um povo. Na vida da artesã Rita Gomes Ferreira, a inspiração para explorar o artesanato surgiu pela influência da avó materna, da tia e da cunhada, ainda na infância. Na cidade natal, Coqueiro Campo, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é forte entre as mulheres o fazer artesanal. Enquanto os homens mudavam de cidade em busca de emprego e melhores condições de vida, elas investiam no trabalho manual como forma de complementar a renda. Atualmente, mais de 40 estão reunidas na Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo, que nasceu em 1984 pela iniciativa de um pequeno grupo.

Aos 58 anos, Rita encontra no barro a matéria-prima para a produção de bonecas em cerâmica, o carro-chefe de sua obra, que também inclui outros itens de decoração e utilitários. Entre os modelos mais comuns, estão bonecas de feições negras, noivas, sentadas, em pé, a Manuela Gostosa (personagem da região), outras que retratam as mulheres do Vale. Na linha de esculturas também estão santos e, nas opções para a casa, galinhas com flores, flores de parede, flores em vaso, pratos de parede, vasos, moringas, releitura de potes antigos usados para guardar água, agora transformados em adornos. Tudo seguindo o conceito dos trabalhos tradicionais da cidade, além de peças exclusivas, que só Rita faz.

Rita morou em Belo Horizonte durante 15 anos, onde trabalhou em casa de família e como secretária. Quando retornou ao Vale do Jequitinhonha, aos 30 anos, começou o desenvolvimento das bonecas. Da coleta do barro até a pintura, todo o processo é feito à mão, a partir de um tipo de barro muito consistente, característico do lugar. “Para mim esse trabalho é tudo, é o que gosto de fazer. Vivo do artesanato, não tenho outra profissão. As bonecas representam a minha história”, diz a artista que tem sua obra conhecida no Brasil e no exterior.

Rita Scaldaferri - Tauariê Objetário - @rita_scaldaferri 

Rita Scaldaferri/Divulgação

O elo de Rita Scaldaferri com a cerâmica parece mesmo amor à primeira vista. Aos 60 anos, conta que há mais de duas décadas surgiu a afeição pela técnica. À frente da etiqueta Tauariê Objetário (nome escolhido há 15 anos, após pesquisas, e que, em tupi guarani, significa 'barro bom'), cria objetos utilitários e decorativos que, em muitos casos, podem responder às duas funções. O toque de refinamento vem da aplicação da renda sobre a argila, ferramenta que é sua marca registrada e dá origem a lindos itens em cerâmica carimbados com o tecido em crochê ou tricô. Com a impressão da renda incorporada aos objetos, surgem trabalhos verdadeiramente especiais.

De adornos a peças de uso corriqueiro, a ideia é conceber elementos cotidianos, mas com releitura arrojada e moderna, recorrendo à renda que é um produto típico em Minas Gerais. Altamente resistentes, estão no cardápio de produção de Rita moringas, xícaras, centros de mesa, cumbucas, tigelas, copos, porta guardanapos, aros para porta guardanapo, canequinhas de cachaça e até brincos. Entre os produtos de decoração estão enfeites de parede ou esculturas, como quadros com flores, vestidos e leques, para citar apenas alguns exemplos.

No início, ela fez um curso com a ceramista Erli Fantini, e depois outros mais específicos sobre esculturas e esmalte. Logo desenvolveu o método com a renda. "A impressão na argila eterniza o processo. A renda lembra a arte da avó, a cultura antiga do crochê, do tricô, do bordado. Unindo com o barro, adicionando cores, surgem itens sem equiparação. A grande diferença do artesanato é que cada obra é única. Quando adquire uma peça, você adquire uma história de vida. Vem tudo junto, a identidade de quem faz, de sua região, a cultura de cada local", exalta Rita.

Para o encontro Minas - Arte e Voz, ela preparou objetos decorativos, voltados para uma representação, como quadros de vestidinhos, quadros com rosas, vestidinhos e um leque em cerâmica.

Willi de Carvalho - @willi_cesar_carvalho 

Willi de Carvalho/Divulgação

Como observador atento, não há detalhe que passe desapercebido pelo olhar curioso de Willi de Carvalho, que deixa evidente cada peculiaridade. Muito de sua criação com a arte popular brasileira encontra motivos pela ligação com a terra natal, sertão encantado celebrado por Guimarães Rosa. Nascido em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, com sua obra resgata a cultura do povo e valoriza as raízes identitárias que reforçam um sentido de pertencimento.

O talento para a arte é compreendido desde a infância, quando, no quintal de casa, o menino inventava com o que se divertir. Palitos e grampos da mãe eram refeitos em outros objetos que faziam as vezes de brinquedos, na falta dos tradicionais. "Isso me estimulava a criar. Daí saíam teatrinhos de barro e miniaturas feitas de todos os objetos que eu encontrava", lembra Willi.

Na escola, traçava mapas que entregava para as professoras em troca de livros. No material dos colegas, suas ilustrações eram exibidas em cartazes e nas capas dos cadernos, já que rapidamente, em suas próprias brochuras, faltava espaço para os desenhos. Ele conta que , no momento em que passou a frequentar o conservatório de música da cidade, a feitura da arte se abriu como uma janela escancarada, lhe convidando a saltar para esse universo. Willi diz que, a partir daí, o aprendizado se ampliou e sua perspectiva para a carreira e a experiência como artista se firma, muito com o apoio de quem surgia como novos amigos.

Hoje, as miniaturas são sua especialidade. Como temáticas centrais de suas composições, estão as festas populares mineiras, religiosas e profanas, catopés, caboclinhos, marujadas, reinado e congada, para citar apenas alguns exemplos. Símbolos como o estandarte, peça valorosa em tais festas, e ainda os espirais, representantes da lembrança barroca das cidades históricas de Minas, também marcam presença na produção de Willi.

Com itens de mesa e parede, explorando a tridimensionalidade, também aparecem santos e releituras de presépios, como um modelo construído dentro da figura de um boi-bumbá, reconhecido internacionalmente e comprado por colecionadores de diferentes partes do globo. Willi já trabalhou ainda representação do nascimento de Jesus dentro de um tênis all star antigo.

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